VIDA E POESIA

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quinta-feira, 21 de julho de 2011

janine - o novo livro de tiago Oliveira -

Instinto...
Estranho......
Hoje sonhei que Janine tinha cruzado metade do planeta, saído de Portugal e chegado aqui em Salvador. O mais estranho do sonho é que a encontrei na ladeira do Pelourinho a cavalo!
Então tivemos a seguinte conversa:
Eu - Como é que vieste Janine?
Janine olhou-me sorridente e respondeu - Voando!

Eu – Mas, como trouxeste o cavalo?
Janine - Eu vim a voar de cavalo.
Eu - Mas como, voar a cavalo?
Janine - Sim, é que ele voa...
Eu - Quer dizer que o teu cavalo voa? Estás louca ou estás a brincar!?
Janine - verdade, verdade, eu também voo! ele voa, pássaros voam, muita gente voa, qualquer um pode voar!


Eu - Mas se tu voas , porque vieste a cavalo?
Janine - Por que eu adoro cavalos....adoro cavalos, vou ser cavalo na próxima encarnação, são tão fortes e inteligentes, não achas?
Eu - E podes ensinar-me a voar?
Janine - Claro, mas tens que desejar de verdade e ter fé!

Eu: E como é que tu aprendes-te ?
Janine - Com o cavalo. Quando eu era pequena eu tinha o costume de montar nele e fechar os olhos; era como se eu estivesse a voar. Até que um dia abri os olhos e estava no meio das nuvens. Achei que era um sonho, só que quando cheguei a casa percebi que não estava a dormir.

eu: podes ensinar-me a voar agora?
Janine – Vêm ! Sobe!!!
E saímos a voar no cavalo, passamos pelo rio de Janeiro,
e fomos parar na Capela dos Ossos.

Janine - Não era aqui que tu querias vir?
eu- Sim, mas como é que o cavalo sabia?

Janine - O mal da humanidade é acreditar que os animais não pensam e não sentem! Eles são tão ou mais inteligentes do que nós! Têm instintos mais avançados, seguem sempre seus sentimentos fielmente, ao contrário da maioria dos seres humanos do planeta.
Além de não destruírem seu próprio povo por ganância....

eu – É verdade! Mas como é que eu posso aprender a voar?

Janine - Entra na capela dos ossos. O milagre e as suas asas estão à tua espera! Eu ficarei aqui, o tempo que for necessário, esperando-te. Espero que encontres logo o que procuras. Nós estaremos aqui o tempo que for preciso. Na verdade o tempo dentro da capela dos ossos não existe. Só para os que dele têm medo. Como tu não temes o tempo, acho que vais encontrar-te muito facilmente.

E sorriu, enquanto as portas da capela se abriram na minha frente.

Ainda confuso e com um pouco de medo pelo fato de estar só (sem a Janine) dentro da capela.
Entrei lentamente, olhei para trás e vi novamente o teu sorriso, que me deu forças e alegria para seguir em frente...
Entrei só na Capela dos Ossos, fazia muito frio.
As cenas que vi lembraram-me os meus antepassados. A minha mãe, meu avô, meus amigos e senti muitas saudades deles.
Comecei a chorar lembrando o tempo que perdi na minha vida. Chorei muito. Pensava - Quanto tempo perdi longe das pessoas que são importantes para mim.

Lembrei-me que Janine me tinha dito que na capela dos ossos o tempo não existia. então percebi que aquelas lembranças eram uma grande fantasia que tentava desviar-me dos meus caminhos. afinal era uma loucura passar a minha vida toda a chorar pelos meus medos do passado.

Então segui em frente. Queria gritar o teu nome, mas sabia que deveria seguir sozinho, e fui.

Encontrei então três portas. e uma voz (que me lembrava o som do trovão) veio aos meus ouvidos:

Voz - Tens que escolher duas destas três portas se desejas encontrar as tuas asas. Mas têm cuidado, esse jogo pode ser mais perigoso do que tu imaginas.... e um grande estrondo fez os meus ouvidos por um instante parar de ouvir aquela voz, que ao mesmo tempo me assustava e me transmitia uma calma como nunca me tinha acontecido.

E tinha que escolher as portas. Confesso que a minha escolha baseou-se no fato de que nunca gostei das coisas mornas, sempre preferi o quente ou o frio. por isso escolhi a porta direita e a da esquerda, deixando a porta do meio para trás.

A porta da direita abriu-se, percebi então que aquela porta era a porta dos meus erros. E haviam muitos erros. de todos os tipos e formas. erros cometidos por mim desde a infância. da menor mentira ao ato mais inescrupuloso por mim já cometido.
Como errei na minha vida. errei comigo mesmo, errei com a minha família, com os meus amigos, com aqueles que nem conhecia. vi todos os meus julgamentos equivocados. pessoas que queriam na verdade ajudar-me e que foram justamente aquelas que eu via com desconfiança, enchendo a minha vida de decisões precipitadas baseadas em preconceitos e que me levaram a anos de sofrimento.

Queria sair rapidamente daquela porta. Era muito duro para mim enfrentar meus próprios erros, mas eu não conseguia retornar e abrir a porta.

A voz veio novamente aos meus ouvidos e questionou-me:
Voz - O que aprendeste na porta dos teus erros?

(Eu sabia que só sairia dali mediante uma resposta correcta então calei-me durante horas) e lembrei-me das palavras de Janine sobre o tempo, chorei novamente.
Quis por um momento apagar a minha vida, como se esta fosse a única forma de compensar meus desenganos.
Sentia-me um covarde também para cometer tal ato.
A covardia que me assolou durante toda a minha vida tomou forma e era a visão mais assustadora que já havia visto. Havia cheiro de sangue, enxofre e eu ouvia gritos.
Gritei desesperado, tentando encontrar-me novamente com aquela voz.....

Eu - Aprendi que a covardia de viver verdadeiramente e de insistir em nossos desejos, nos leva a cometer erros que no final da vida retornarão a nós, como num ir e vir infinito.....

Então, ainda num silêncio profundo na capela, a porta abriu-se ...........
Entrei desesperado pela porta da direita, sabendo que qualquer coisa seria melhor do que a porta dos meus erros.
O lugar era escuro mas ainda conseguia ver uma luz distante ao fundo.
Naquele momento percebi onde estava. Aquela era a porta dos meus acertos e que aos poucos se abria para mim.
Senti um grande alívio, deitei-me no chão com meus acertos e dormi tranquilamente. Quando acordei percebi que haviam menos acertos do que erros, mas pude perceber o quanto apesar dos meus erros fui uma pessoa de coração puro, na tentativa de ajudar aos menos favorecidos.
Tinha até me prejudicado diversas vezes por querer fazer mais para os outros do que para mim mesmo.

Revi os meus amores, revi os meus verdadeiros amigos, conquistados sem a força do capital ou dos interesses.
Revi os meus melhores momentos, as minhas vitórias, os meus passos pela areia da praia com as pessoas que eu amo....

Vi a minha casa sendo construída por pessoas que realmente acreditavam em mim, pessoas que confiavam e que de uma certa forma me seguiam pelo poder de admiração que consigo causar nas pessoas.
Vi o meu filho Iago, o maior acerto de todos desde que nasci. Vi como ele me ama, como consigo passar para ele as coisas boas que a vida me tinha ensinado.

A voz entrou novamente como um raio pelos meus ouvidos e novamente escutei o seu questionamento:

Voz - O que aprendestes com o teus acertos?
Confesso que a primeira pergunta era muito mais fácil do que aquela, pois era fácil deduzir que deveria a partir daquele momento parar de cometer erros por falta de coragem e seguir o que eu realmente desejava. Seguir meus instintos. Mas o que eu aprendi com meus acertos? Essa era uma pergunta que
parecia simples, mas se transformava mais complicada a cada segundo que passava...

Deitei-me no colo de meu filho e comecei a chorar novamente. Mas não era um choro de tristeza. Era um misto de sensações de prazer e dor que ao mesmo tempo invadiam meu peito e me traziam lembranças.
Adormeci com meu filhote que me acariciava os meus cabelos e quando acordei já sabia a resposta.

E gritei àquela voz:

Eu - Aprendi que devo seguir minhas intuições, cuidar do meu filho e criar um novo mundo para que ele possa viver.

E a voz respondeu:

Voz - Resposta interessante, mas não é a correcta. Não te trará as tuas asas, mas ainda assim dou-te a liberdade. Podes sair da capela, mas se queres voar tem que fazer a tua alma chegar mais alto! E chegar ao alto é pensar no todo e não no indivíduo como um só.

Talvez se tivesses escolhido a porta do meio encontrarias os teus milagres e certamente também as tuas asas.....

E novamente o medo invadiu-me. Como chegaria lá fora sem as minhas asas? Como olharia para Janine sem as minhas asas? O que pensaria de mim? Como poderia vê-la com essa sensação de impotência por não ter conseguido cumprir meus objectivos?

Abriu-se diante de mim naquele momento, um imenso corredor, onde eu podia ver as imagens de pessoas que me julgavam. Julgavam-me por ter errado, julgavam-me por ter acertado , julgavam-me pelas minhas roupas, pela minha forma de falar, de querer e de viver.....
O corredor dos julgamentos deixou o meu coração muito apertado e a cada novo julgamento era como se eu fosse o próprio Cristo no caminho até o calvário. Então firmei meu pensamento no mestre Jesus. Lembrei-me de Buda, lembrei-me de Bob Marley, lembrei-me de muita gente enquanto corria desesperadamente em busca da saída.

Encontrei-me ainda nesse corredor com Florbela Espanca.

Parei. Senti muita felicidade. Sempre amei a sua poesia.
Eu sabia que ela se tinha suicidado, com uma dose excessiva de um remédio chamado Veronal.
E ao iniciar nossa conversa, perguntei:

Eu - Por que tiraste a tua própria vida?

Florbela - Porque deixei os meus medos tomarem conta dela. Toda coragem que eu tive foi aquela que consegui colocar no papel. Nunca consegui colocar os meus desejos na prática. Vivi numa fantasia durante toda a minha vida e quando percebi que o mundo me tinha virado as costas aos meus desejos não vi mais sentido para continuar......

Eu - Mas isso foi um grande erro. Tu és linda , os teus poemas são a mais bela expressão de verdade que já li.

Florbela - É verdade. Foi um erro, mas hoje tenho consciência de que através desse erro é que fui imortalizada e tenho feito muitas pessoas melhorarem-se e serem mais livres através dos meus poemas.....

As perguntas que assombravam a minha mente durante aqueles dias na capela, tornaram-se claras e finalmente consegui achar a porta de entrada, onde sabia que ia finalmente reencontraria Janine.
Sentia-me imensamente feliz, como nunca, e apesar de não ter conseguido as minhas asas, tinha aprendido muito durante minha permanência naquela lugar santificado.
Tinha escolhido as portas erradas naquele caso e sabia que eu não tinha mais tempo para abrir a porta certa, pelo menos por enquanto.....

Abri a porta da capela e Janine estava a dormir como uma criança, no chão, aos pés do seu cavalo.....

Decidi não acordá-la, afinal, não acreditava mais no tempo......
Quando Janine acordou, olhou-me lentamente, sorriu como era de costume e falou ainda com voz de sono:

Janine – quando estavas fora, comecei a voar por Portugal e realmente fiquei admirada. Tantas coisas bem perto de mim, só que eu as desconhecia totalmente.

tão próximo que eu nem me dava conta. Como isso é engraçado....

Eu - Isso é normal Janine, isso acontece a maior parte do tempo com todas as pessoas do planeta. Comigo também! O bom é que agora reconhecemos a verdade para poder aproveitar melhor as circunstâncias que a vida e nossas escolhas nos fazem passar.

Janine - E está tudo tão claro agora... bem que o cavalo falou...

(E olhamos um para o outro subitamente e sorrimos. Sorrimos muito.)

Janine - E as asas? Como foi durante a busca? O que achas-te do nosso pai?

Eu - Nosso pai? Então era dele aquela voz?

Janine - Quer dizer que não o viste?
Que pena , isso quer dizer que não conseguis-te as asas, não é?



Então eu percebi que Janine sabia exactamente tudo aquilo pelo qual eu tinha acabado de passar!
Os meus erros ,os meus acertos ,os meus medos ,as minhas alegrias. Como será que Janine tinha reagido?
Quais seriam os seus medos?

(E enquanto uma série de perguntas ocorriam-me simultaneamente sobre Janine, acabei por mergulhar na profundeza daqueles olhos.)
Parecia uma mistura de cores. Cores que hipnotizavam e me faziam enxergar um caleidoscópio de girassóis.
Era como o rio, como o mar, como as estrelas.

Havia tanta certeza naqueles olhos que descobri automaticamente como é que ela tinha conseguido suas asas. A certeza, a confiança, aquilo que me faltava.

Eu tinha passado toda a minha vida cercado de dúvidas e medos. Deixava de seguir o meu próprio caminho para viver baseando-me naquilo que as outras pessoas desejavam. Deixava de falar o que sentia, para falar o que as pessoas queriam ouvir.

deixei de viver o meu eu verdadeiro para viver o que o sistema induzia. Mas finalmente agora eu estava livre....

Quantas vezes deixei de dizer eu te amo.
Quantas vezes me recusei a insistir nos meus planos.
Quantas vezes desisti a meio do caminho.

Percebi nos olhos de Janine, que ela sabia exactamente tudo o que eu estava a pensar, conhecia os meus caminhos e as minhas fragilidades.
Ela sorriu quase sem graça e falou:

Janine - Não te tortures Tiago, não te condenes... O nosso pai não pune, não castiga e não condena. Ele conhece-te por inteiro e sabe exactamente a verdade sobre a vida. Agora o que precisamos mesmo de saber é como vamos conseguir as tuas asas! Nem eu nem tu podemos abrir aquela porta. Eu acho que devíamos nos deitar um pouco e descansar! Deves ter tido muito trabalho por hoje lá dentro. dorme um pouco e amanhã tornamos a tentar ir atrás das tuas asas...

A voz de Janine entrava nos meus ouvidos como um comando e sentindo todo o cansaço do mundo sobre os meus ombros, obedeci à sua ordem e imediatamente cai em sono profundo..

Foi uma noite fria, mas ao lado de Janine sentia-me como no útero materno. Sentia-me confortável entre os teus braços. Havia um cheiro agradável a mato e terra nos seus cabelos.
Dormi naquele dia um sono sem sonhos..

Acordamos e incrivelmente ainda estava escuro. (Parece realmente que outro tempo rege este santuário). Então perguntei a Janine:

Eu - Como faremos agora para conseguir minhas asas?

Janine - Deixa a insegurança de lado e têm fé! Não desistas! Vamos entrar lá novamente e tentar falar com o nosso pai.

E ela violentamente abriu a porta da capela.
Antes de ser arrastado por completo por Janine observei algo que estava escrito na parede de entrada da Capela:

"NÓS OSSOS QUE AQUI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS."

Pensando naquelas palavras fui arrastado pelo mesmo corredor por Janine....

Chegamos em frente daquelas mesmas portas do dia anterior. Senti um frio na espinha lembrando-me de tudo aquilo que havia passado.
A mão de Janine ainda estava colada na minha, quando ouvimos a voz do nosso pai:
Nosso Pai - Janine, minha filha! Tu sabes que não podes abrir essa porta ,as suas portas já foram abertas e tens que deixar que ele descubra seus próprios caminhos. Podes ajudá-lo na busca das asas, mas não podes abrir esta porta.

Sabes que se quiseres abri-la estarás entregando-lhe a liberdade, mas também sabes que isso te retira o teu direito de voar...

Janine calou-se momentaneamente, mas insistiu durante alguns minutos para que eu aceitasse em receber minhas asas em troca das dela , o que automaticamente recusei.
Ela fazia aquilo de coração puro. Ela queria me ajudar.
Era como se isso fizesse parte dela o tempo todo. A necessidade de ajudar os outros. Era incrível. mas eu não podia aceitar a sua oferta..

Naquele momento, uma grande tristeza invadiu-me. sufocou a minha alma, atravessou a minha mente. Depois de todo aquele tempo, o olhar de Janine agora fitava-me com impotência.
Sentia-me culpado.

Quando chegamos à saída daquela fantástica capela já estávamos mais tranquilos.

Escutava uma voz em minha mente. Essa voz repetia insistentemente: Não desistas, segue, luta, avança.
Dentro de mim algo falava que estava tudo acabado. Era a hora de voltar.

Eu abri a porta de saída e tive uma enorme alegria ao ver que o nosso fiel companheiro cavalo, ainda estava lá!
Subimos no Cavalo e desejei ir para casa. Já estávamos a caminho.
De repente escutei novamente a voz que me dizia para eu nunca desistir. Só que agora reconheci de imediato de quem era aquela voz. Era a voz de Janine que virando o rumo da nossa viagem bruscamente gritava:

Janine - Avante com os nossos desejos, avante para a capela dos ossos novamente!!!!!

Então o cavalo mudando de rumo, vira-se, ultrapassa a velocidade do som ,adentra a capela dos ossos e penetra a porta do meio que me faltava conhecer.
Será que estavam lá as minhas asas? o que havia lá dentro?

Eu - Janine, sabes que vais perder as tuas asas, porque fizestes isso?


Janine - Aprende a respeitar o livre arbítrio das pessoas e encontrarás o teu livre arbítrio. E afinal, não fui eu quem abriu esta porta. Foi o cavalo. E sorriu. Foi ele que insistiu para que nós voltássemos.

Cavalo - caro amigo, fica tranquilo. Eu já voei por todos os cantos que tu possas imaginar. Quantas pessoas durante todos estes anos eu trouxe aqui para encontrarem as asas! para encontrarem os caminhos! Para revelar-lhes o segredo. Foram muitos os que desistiram na primeira porta. Eu estou cansado, amigo. Chegou a hora de voltar a viver entre os outros cavalos, voltar às minhas origens e encontrar meus outros “eus”. A minha unidade, meu eu superior.
Agora vão! deixa que Janine te ajude dentro dessa porta, aprende com este cavalo. encontra o não tempo e não desistas. Vão antes que a porta se feche. Fecha os olhos, confia na Janine e deixa o teu coração guiar-te para o alto.!!!!!
Eu - Obrigado cavalo. Nunca esquecerei o que fizeste por mim.


Eu - Janine, achas que podes ajudar-me dentro dessa porta? Estarei com os olhos fechados . Então espero que possas guiar-me durante a minha permanência atrás das minhas asas.
o que achas?

Janine - Claro que posso! Do que estamos à espera? Vamos! Rápido....

E entramos naquela porta. Eu de olhos fechados e Janine a segurar as minhas mãos.

Eu - onde estamos Janine?

Janine - Numa festa. Numa grande festa!

Eu - E quem são os convidados?

Janine - Eu não os conheço, mas sei pelo olhar que eles estavam à tua espera. Estavam à tua espera para o baile começar.

Então uma música, que me lembrava uma valsa, começou a tocar.


Janine juntou suas mãos nas minhas, encostou seu corpo no meu e começamos a dançar lentamente. Era realmente uma valsa. E embora não tivesse acostumado a dançar sentia-me agradavelmente tranquilo, e deixei que Janine guiasse os meus passos.
Sentia-me como uma criança, que por milagre acabara de nascer. Sentia-me leve e preparava-me para voar.
Sabia que estava perto de minhas asas e a confiança que eu tinha em Janine fazia-me sentir cada vez mais perto dos meus objectivos.

Janine - Voar é tão fácil e natural como respirar. sabias? As tuas asas estão tão perto de ti que não as consegues ver. Se acreditares que elas estão distantes de ti, elas vão-se distanciar cada vez mais. Aprende isso! Tu crias a tua própria realidade. Sente as pessoas. Sente a alegria delas. Vê que tudo isso está a ser criado por ti neste momento.

E a voz de Janine invadia os meus ouvidos ao passo da melodia da valsa. por um instante o nervosismo que sentia deu lugar a uma alegria ininterrupta e mesmo de olhos fechados podia

reconhecer como familiar todos os convidados daquela festa.

Janine - O cavalo disse-me tantas coisas sobre nós dois! Disse que te conheço a muito tempo. Parece que sempre estivemos juntos. Em outras encarnações. Contou-me sobre as nossas histórias de amor, nossas viagens à volta do mundo, falou-me sobre todas as vezes que me ajudas-te a conseguir as minhas asas e falou-me que agora é a minha vez de fazer o mesmo por ti!

eu - Obrigado Janine, sabia disso desde a primeira vez que vi o teu sorriso. Reconheci-o como sendo um sorriso familiar. Reconheci os teus olhos, reconheci o teu cheiro de mato, reconheci o teu toque. Reconheci as tuas palavras.
E Janine apertou o seu corpo contra o meu, lançou suas mãos por trás da minha nuca e desatou os nós que me impediam de ver. Finalmente estava dentro daquela porta de olhos abertos.
Finalmente poderia ver quem seriam os personagens daquela festa. Será que agora acharia as minhas asas? Quem eram aquelas pessoas?
Janine - Se tivesses conseguido reconhecer essas pessoas sem a necessidade de vê-los, terias automaticamente recebido as tuas asas. Mas segue. procura pela festa. Deixa o teu coração guiar-te Reconhece os teus novos e velhos amigos. Vê a existência deles dentro de ti e descobre o poder mágico que existe no teu coração.

Eu olhava para as pessoas que estavam naquela festa e tive dificuldade em reconhecê-los.
Eram muitos. Estavam todos vestidos da mesma forma, davam-me a impressão que eu estava num grande jogo entre iguais.

Quando consegui reconhecê-los, percebi que eles eram todos os meus erros, bailando lenta e sincronicamente com todos os meus acertos.

E eles eram como um só. não existia qualquer diferença entre uns e outros. Eles tornavam-se um só!
Eles completavam-se. Não existiriam separados. Não poderiam existir um sem os outros.

Percebi a verdade que cercava a minha vida. Descobri tudo aquilo que eu procurava durante anos e anos ininterruptamente.

Percebi que os meus erros e meus acertos fazem parte de um todo, que é parte integrante de uma grande força criada pelos meus desejos.

Não via mais erro nos meus erros. sabia que os meus acertos multiplicavam-se, superando as faltas que havia cometido durante a minha vida.
Sabia que nada havia de errado em minhas dúvidas, em meus medos, em minhas angústias.
Descobri que elas fazem parte do grande processo de descobertas que são iguais a todos os seres humanos e que existiam para nos forçar a ir em busca dos nossos sonhos.
Sentia-me pela primeira vez na minha vida num estado de êxtase completo.
Era como se não tivesse forças para comandar meus passos. Sentia-me leve como o vento e durante um momento o meu corpo ainda desnorteado começava a desfragmentar-se. (lembrei-me da primeira vez que experimentei ahayuaska e que me vi a voar por toda a cidade de Salvador. (Aquilo era fantástico.)

Ainda em transe pude ouvir quando a voz do nosso pai estrondeou pelo ar colocando-me as ultimas questões.

Nosso Pai: E então meu filho, o que aprendestes nessas portas sobre a vida?

Sabia que eram essas uma das últimas perguntas que haveria de responder antes de sair da capela. Sabia que minha resposta seria definitiva para conseguir minhas asas.

Procurei pensar bastante. Parei o tempo durante alguns instantes.
Olhei para Janine e ela sorriu. O seu sorriso mostrou-me que era possível viver a resposta. Sentir a resposta.
Não precisava de palavras para conversar com o nosso pai. Precisava ter fé. Compreender que as minhas asas sempre estiveram comigo. O tempo todo. Todas as pessoas também eram unas comigo.
Todos durante todo o tempo estavam nas mesmas buscas que eu.

Éramos um afinal. Eu, nosso pai, meus erros, meus acertos, Janine e o cavalo Instinto (afinal, agora sabia seu nome)
Éramos incontestavelmente um! Um único e poderoso ser que era guiado pelo mundo para sua auto descoberta.
Éramos Deus. Éramos ar. Éramos fogo. Éramos luz. Éramos terra. Éramos éter. Éramos água.

Então a voz do nosso pai veio novamente a mim.
e perguntou:
Nosso pai - O que buscas, meu filho.?

Eu pensei em responder que procurava minhas asas, mas algo dentro de mim me disse que a resposta não era aquela.
Havia mais na minha busca do que a procura das minhas asas. Eu buscava realmente as minhas asas, mas sei que só as conseguiria se conseguisse enxergar o amor. E o amor estava em tudo.

Então olhei para alto e respondi:

Eu - O amor. Busco o amor. Só o amor. O amor que me trará as minhas asas. O amor que tudo cura.

O amor que faz milagres. O amor que nos unifica. O amor que nos integra. O amor que começava a sentir naquele momento, por todas as pessoas.

Nosso Pai - E como podes enxergar o amor? questionou-me a voz!

Essa era mais uma resposta difícil. Sabia que deveria pensar para responder.
Nesse momento algo me fez olhar para o lado e ver Janine.
Comecei a ver nela o amor.
Vi nela o amor personificado.
E abraçamo-nos. E transformamo-nos em um só ser.

De repente, como que por um toque de magia senti os meus lábios tocarem os de Janine. Senti novamente os seus dedos entre os meus dedos, seus cabelos sobre os meus ombros. E aquilo que mais me atraía; o seu olhar dentro do meu.

E ouvindo novamente o som da valsa que lentamente recomeçava.

Senti os lábios de Janine levarem-me para o alto.
Estava mais alto do que as nuvens, mais alto do que as estrelas, mais alto do que a lua. Estávamos fora do nosso planeta. Nas alturas onde o amor nos levou.

E sabendo que havia descoberto então as respostas a todas aquelas perguntas e em um estado de felicidade inexplicável respondi:

Eu - O Amor não se pode enxergar. Pode-se sentir. Em todos os lugares, por todas as pessoas e em todos os momentos.
O amor que sentia naquele momento havia sido personificado em uma pessoa, Janine.
Naquele momento, eu era capaz de sentir esse amor por todas as pessoas do planeta. Esse era o segredo. O poder de atracção do amor. O poder que une as pessoas e nos transforma diariamente.

Então vi o nosso pai. Senti as minhas asas a crescerem nas minhas costas. E pude soltar os doces lábios de Janine e sentir-me seguro pelos ares.

O nosso pai era idêntico a mim. Ele era um outro eu, só que mais velho. Um eu experiente que já havia passado por todas as circunstâncias da vida. Um outro eu. Maior e mais completo.
Um eu, que ao me abraçar , desapareceu entrando como se fosse um espírito no meu corpo.

E senti-me um com ele também.
Vi em Janine o reflexo da felicidade. Janine sentia-se assim por ter conseguido ajudar-me a encontrar as minhas asas.
Janine estava assim por que conseguiu encontrar-me. sorria orgulhosa por sermos assim. bons. guiados pelo amor.

E vimos o cavalo, com seus irmãos. De volta as suas origens. E vimos um mundo de paz e de alegria. Um mundo que inevitavelmente veremos.
E vimos o futuro, o passado e o presente juntos.
Dançando um ballet inevitável do não tempo. E sentimos o não tempo e olhamo-nos como se nunca nos tivéssemos separado.

Saí do transe do primeiro voo e percebi que estava só!
Não sabia quanto tempo havia passado dentro da capela, mas percebia que Janine realmente estava certa. O tempo não existia.

O meu desejo guiava os meus pensamentos e as minhas asas levaram-me para onde eu queria. Para uma pracinha em Oeiras, onde pude reencontrar o meu amor.
Janine estava a ler um livro sobre alquimia e ao ver-me rolou pela relva comigo, fazendo-me lembrar os nossos tempos de crianças em uma outra encarnação.
Pudemos então ver todas as nossas encarnações, ver as vezes que nos encontramos e repetimos aquela cena de rolarmos pela relva.

Consegui ver Janine fechar os olhos esperando por um beijo meu. E como se desejasse novamente voar de mãos dadas, fomos parar na Baía.

Havia muita festa em minha casa. Todos estavam felizes por perceberem que eu havia conseguido as minhas asas.



O meu filho ficou mais feliz ainda por perceber que agora o meu peito estava novamente completo com ela, Janine.

Ele sabia que ela num futuro próximo iria ser a melhor madrasta do mundo. e que o levaria para passear pelos céus durante a noite.
Sabia que seu pai agora poderia viver uma nova história de amor e que a partir daquele momento não sofreria mais com as dúvidas e os medos que o atormentavam no passado.

Ele via nos meus olhos a expressão maior do que é a felicidade e sabia apesar de ser criança que a partir daquele momento , não só uma mudança estava a acontecer em nossa casa.
Ele sabia que uma mudança estava a acontecer em todos os cantos do mundo e que um raio de amor invadia cada país, cada cidade e cada coração desse planeta.

O amor. A resposta real para todos os problemas!


Tínhamos agora uma missão.
Mostrar para os povos que ainda era possível salvar a humanidade.
Nós sabíamos que a morte não existia, mas também sabíamos que aquele era o momento da grande transformação do mundo.

Éramos três: Eu, Janine e meu filho.

Éramos um e essa era a diferença:

Tínhamos total consciência da nossa unidade.

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